22 22UTC Outubro 22UTC 2009

Um pessoas?

O facebook é um site muito bacana. Agora a gente tem oráculos… e oráculos. A Hilda Hilst me disse que o sacrilégio na palavra pode falar ao mundo morto! Eu mesmo elaborei um aplicativo. EU mesmo. Finalmente, EU mesmo quase acredito nele! Ele revela e a gente acredita. É assim, a gente seleciona aquilo que presta, aquilo que a gente quer ouvir, ler. É por isso que sempre é bom reler os livros que nos marcaram. Ou para ter outra interpretação, ou para ver que o livro era nulo e na verdade quem escreveu o livro foi você mesmo! Alguns escapam, mas sempre resta o fundinho que somos nós, leitores. “Nós fazemos as palavras, os leitores fazem as imagens”. A gente lê, relê, re le, rala, ri e depois explica pros outros para fazer os outros verem aquilo que vimos. E sabe o que é isso? Retórica. E hoje em dia, sabe o que é isso? Arte. Alguém que se cria, uma obra de arte falante, escrivente, que te convece, pelo menos por um momento. Ainda assim, você nunca é convencido daquilo que ele ou ela diz, mas da sua prórpia capacidade de conceber (CONCEBER, como Maria concebeu Jesus! ou sua mãe, você) uma idéia. As palavras são blocos ocos, socos de som prenhes de caminhos. São como bifurcações que conectam os caminhos para onde se quer ir. “Todos os pergaminhos levam à masmorra”. Mas não se engane e pense que você já sabia tudo desde antes, como o queria Sócrates! Connection, conexão! Você, ou EU, como diria Nietzsche, é uma ilusão – uma ilusão que advém do verbo (sim! de Deus, do Verbo!) que se conjuga com um sujeito… que não é você, nem eu, mas uma palavra que há como único parentesco real com o concreto o fato de ser “como uma bifurcação que conecta os caminhos para onde SE quer ir”. E o “se”… “se” ou não “se”, eis a questão. Mas quereríamos nós que fosse tudo apenas palavras, a pandemia da interpretação, bonora dos deuses… resta o “se”.

A repetição contínua de uma mesma palavra (o que os concretistas faziam com esmero) leva a sua desintegração. Vira som sem sentido, vira rizoma. A repetição contínua de uma pessoa vira… uma geração. Uma geração que tem até nome, que já é até palavra: Geração Y. “A geração Y é vista como a rejeição final da contra-cultura que começou nos anos 1960 e que persistiu através das décadas subsequentes até os anos 90. [...] a construção de um consenso geracional que parece ser mais saudável e útil do que os protestos da contra-cultura do fim dos anos 60 [...] [porque adoram o Obama!]“. Mantendo forte afinidade com o neoliberalismo e fazendo apologia ao desenvolvimento tecnológico, é uma geração imersa nos novos meios de telecomunicação e cibernética e que tendo sido criada pela geração do Baby Boom, ou seja, por pais que valorizam o bem-estar e a abundância das quais careceram de certa forma em sua geração, é exigente e possui uma elevada auto-estima. São aqueles nascidos entre os anos 1980 e 2000. Ai, “I and I” é também “we and we, rasta!”

Nos “países” “desenvolvidos”, sociologia é ciência! E esses nomes servem sabe para que? Para fazer gráfico, mapas, projeções que servem ao desenvolvimento de novos produtos no mercado e a políticas públicas. Pois é, não se faz nada sem se ter os nomes dos culpados! (TAC! Bate o martelo). Então nós, zumbis do consumo, surfistas do infomar, telespectadores e telespectadoras estamos estaticados no leito cartesiano das bolsas de valores, mercados e futuros. (Quem imaginou que pudesse ser tão importante assim?!). É verdade! Mesmo quando você dorme e sonha com seu noivo computador, com seu hype perdido na balada, seu futuro como dansarina em Paris, você faz parte de um dos 60 milhões de Ys de uma geração! Então, dê um beijo bem forte na sua mãe e no seu pai, agradeça-os pelo presente de estar vivo e fazer parte da geração mais “high-low” de todos os tempos!  A bênção de ser mais do que uma palavra, de ter encarnado como um número! Que faz toda a diferença…

30 30UTC Setembro 30UTC 2009

As fichas vão caindo… (em euro)

Depois das férias com a Jéssica, da retomada das aulas, da volta para casa em Lyon e do não encontro com praticamente todas as pessoas que conheci no semestre passado (a não ser a fraternidade francesa ponta firme), depois do retorno da potência que só observava sorrateira, do calor mais que tropical, da Índia, Nepal, Inglaterra, Irlanda, Escócia, Espanha, França, cheguei agora da Suiça, de Genebra, pois fui entregar uma mala de roupas de baiana na representação do Braisl junto à ONU e tirar um troco. Depois disso tudo, chego em casa, 21:30 e janto com minha parceira irmã de apartamento, a Marriná, já que todos os outros estão assistindo à Champions’ League. Trocamos uma idéia forte. E depois das perguntas que fiz ao longo desses 9 meses, de tudo o que vi e senti, pessoas que conheci, filmes, edifícios, manifestações, livros, discussões, bebedeiras, esportes, ambientes, políticas, reações, amores, imigrantes, comidas, sonhos, transportes, tecnologias, trabalhos, tentativas e fracassos, aulas, exigências… enfim, começou o jackpot. Vários insights, compreensões, idéias, amigo… nem te conto – epifania tântrica. O marco foi ontem. Trabalhei num evento da Embratur que divulga (porque roda várias cidades do mundo) o Brasil enquanto destino turístico e a grande moeda caiu na cachola: Depois de tudo e ainda assim, com tudo, consigo ver o Brasil como estrangeiro! É muito louco!!! Críticas, teorias, mas há uma realidade, presente, concreta e dura: econômica, social, política (as interpretações culturais ficam à parte) que acontece e que tem que ser vista – e só pode ser vista com o distanciamento apropriado para nos colocarmos em nós mesmos, “I and I, rasta”. Brasil de longe, brasileiros por outros. Não se trata de um discurso nacionalista, mas, mais do que nunca, as nações existem! (salvo que temos que adicionar ainda algumas multinacionais que também ocupam o peso de uma “nação”).

A situação é a seguinte: pouquíssimos conhecem o nosso país e os que o conhecem não vão muito além dos estereotipos do ambiente, como macacos não tão desenvolvidos que jogam um futebol superior; do cultural, sambista, ou terceiro-mundista pobre e ignorante (graças aos filmes); católicos a fundo (graças aos jogadores da seleção de futebol); destruidores da floresta amazônica (graças aos jornais de grande circulação); detentores de uma natureza surreal de praias e riquezas naturais, mulheres de fio-dental e travestis. Não é por mal e nem com más intensões – é muito mais devido a como as informações circulam. Devo dizer, entretanto, que ultimamente temos ganhado um destaque crescente e feito um esforço considerável para mudar essa visão mesquinha – principalmente em termos políticos (onde entra o evento da Embratur, por exemplo). Deixando de ser o lugar onde pode-se fazer tudo na impunidade, para virar um lugar de respeito. Bravo! Entretanto, há que se ir mais longe. Principalmente quanto à questão interna. As mil e uma desculpas de que nada funciona, não há nada a se fazer, só a negação nos salva, etc., não são suficientes; ou melhor, não são bem vindas. É verdade que a situação é feia e o pós-modernismo nos leva ao desespero, mas é preciso olhar mais longe.

Ao longo de toda a sua história ocidental, o Brasil sempre foi um mestiço bastardo, cuja mãe foi beliscada por todos, mas ninguém quis assumir. Seduzido por tantos outros, segue todas as tendências de ponta (não por muito tempo) e as abandona logo quando surgem outras – transformando-se num grande laboratório bizonho ou num enorme ser pós-moderno. Como se não bastasse, venera seus ancestrais perversos, sem perceber suas potências. Como fuga, abraça o consumo e o american-way of-life, já devidadmente barateados e democraticamente disponíveis aos crediários e dívidas infinitas. Entretanto, não caia assim tão rápido no canto da sereia. O preço pode ser ainda muito mais alto…

É preciso haver uma consciência (já Nietzscheana) de que não há milagre, mas que é o esforço que constrói a obra. Uma cultura de dar consistência à mesma potência. Também importantíssimo, de tornar o público propriedade de todos e não de ninguém. Para isso, incentivo à pesquisa, concursos sobre os mais variados temas, programas nas rádios e televisões com entrevistas de intelectuais e pesquisadores que divulgam seus resultados.  Trazer à tona a inquietação, o questionamento, a indignação! As violências das quais nos queixamos se repetem ao longo de toda nossa história (pública!). Visitas a diferentes pontos da cidade em que é explicada a sua formação; painéis de história com fotografias do que era antes nas diferentes épocas; um painel explicativo de quem foi Borba-Gato ao lado de sua estátua. Que todos os lugares onde houveram revoltas populares no passado também sejam transformados em destinos turísticos. O Brasil é vendido como paraíso tropical. Mas será que é isso o que somos? Sorridentes na miséria?

Por outro lado, aqui na Europa as coisas são impressionantes. Eficácia, funcionalidade, preço, qualidade de vida, acesso aos direitos, qualidade do ensino e da pesquisa, tecnologia de ponta. Arrogância, entretanto, de um povo que se acha e se vê, sustentado pelas evidências, como sendo o melhor (um etnocentrismo enraizado - e é claro que quando seu sistema é soberano, normalmente tende-se a ser o melhor). Podem comprar alimentos orgânicos; se preocupar com os problemas na África dentro da dialética da assistência donativa e a culpa histórica de ter destruído um continente. Podem valorizar mais a produção artística, pagar melhor seus trabalhadores. Mas ainda assim, são especialistas em esconder as desigualdades e os problemas nas periferias. Não se vê nada. E como já dizia o ditado, o que os olhos não vêem… Por que? Por causa de uma história densa que legitima o status quo, mas que também deu maturidade a um processo de constituição mais longo e construído. História que se vê nas igrejas, catedrais, ruas e edifícios, na boca das pessoas. Mas também e ainda mais, por causa da força econômica… e o econômico, ai, esse pode causar indigestão. Pois afinal, desde que esse mundo é mundo, ou seja, desde a revolução industrial, quem enche o bau de grana é a Europa (e depois os States). E sem a verba, fica sempre mais difícil, quando não impossível de realizar o que se quer. Contrariamente, quando se tem a prata, as portas se abrem, chovem oportunidades e finalmente acredita-se que com o dinheiro, aumenta também a importância. Pois é, poderio militar, mas antes de mais nada, potência econômica, são as duas armas que nos permitem chegar à conclusão de que “a política é a continuação da guerra com o emprego de outros meios”. Segura a bronca G20… até que a morte (ou o euro) nos separe.

23 23UTC Agosto 23UTC 2009

Poema em notas de rodapé

1- É o quinto dia que não saio de casa. Para ser mais preciso, do meu quarto. Muitos pensarão: que horror! (inclusive eu mesmo). Mas havia esquecido como é bom decantar. Às vezes é preciso ficar doente – chegar ao extremo da passividade e perceber o quanto somos reféns das demandas. Quando não se há mais nada a fazer, eis quando tudo começa.

1.2 – Como disse H. D. Thoreau: “Podem prender meu corpo, mas nunca conseguirão prender meu pensamento”.

P.S.: Coitado, se estivesse vivo.

2- Leia Henri Bergson. Matéria e Memória é sua obra prima.

3- Quanto mais se entende, mais livre se é (pelo menos seu pensamento). Quanto à quantidade de informação e ao conhecimento, são importantes para acabar uma conversa chata, começar uma boa ou dar risada do presente. Há gigantes que se utilizam de todas as três formas para gerar pérolas. E não se engane com o moralismo da maçã do conhecimento: quanto mais livre melhor. Essa história de sofrimento e expulsão do paraíso é coisa para frangotes.

3.2- Procure pelos três gêneros do conhecimento em Spinoza. (Cláudio Ulpiano pode dar uma luz!)

4- “There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are dreamt of in your philosophy.” But, there are many things in my philosphy that are not in heaven nor earth.

4.2- Aliás, creio que essa seja a base. Percebemos coisas e inventamos as relações entre as coisas. Uma teia de relações que dá sentido (não necessariamente lógico) à percepção. Interpretações. Explicações para coisas que de fato acontecem. Tecnologia: explicações para fazer uma coisa acontecer e, de preferência, funcionar.

4.2- O resultado? Viver em um mundo surreal. Seu sonho, caro amigo, pode tornar-se realidade! Seu pesadelo? vai encontrá-lo na esquina! E a situação é tão grave que sua realidade pode tornar-se um sonho e sua esquina um pesadelo.

5- Sobre isso estavam discutindo dois grandes cientistas em desacordo até que o Doutor Fantástico resolveu apertar o botão vermelho… “It worked!” gritou o Dr. Oppenheimer de seu escritório.

5.2- A história se repete com a ovelha Dolly, com o porco luminescente, com o homem-peixe bastardo…

6- Bem vindo à primeira geração pós-moderna!

6.2- Após 50 anos negros de desilusão (ou ilusão – como bem prefirir), de puro niilismo, crítica e descrença, emerge um pragmatismo avassalador. A história virou erudição para museus e as coisas servem ou não a algum propósito. Se não, reciclagem.

7- Morte ao “homem cordial”!

8- Trabalho, trabalho, trabalho! Ei, sou filho de Tupã! – Então, reciclagem!!!

9- POLLOCK

                                        FLUXUS                                  -                                     SENTIDUS

                                                                                                                                        É

                                                                                                                                     NADA     ———————     TARKOVSKI

                 KAINBRA MENTHAW é a eternidade do universo

BLAVATSKI                                    onde                                                             TUDO               SENTI                 COCK                     

 

9.2- “Eita! um fejão intupiu u bicu. Corre, Maria, que essa porra vai spludi!!!” Exclamou José ao avaliar a panela de pressão.

3 03UTC Agosto 03UTC 2009

Anticristo

Há 2 horas e meia atras comprava uma entrada para o último filme de Lars von Trier. Havia lido meio mes antes em um jornal britânico o relato de diversas pessoas (professores, artistas, jornalistas, etc) sobre o filme que apenas havia visto o nome. Despertou-me a curiosidade – a extremidade: louvado ou odiado. Entretanto, estava claro que se tratava de algo forte. Realmente, é algo bastante forte. Esperava alguma coisa na linha de David Lynch. Porém, ficou claro quando, ao final, surgiu a dedicatória a Andrei Tarkovsky. O cinema fica a 10 minutos de onde moro e durante todo o caminho vim sentido calafrios. Estava frio, mas o frio vinha mais de dentro. Gélido. Não consegui arranhar sequer uma palavra. Estava mudo, inundado de sensações. Não conseguia pensar. Tarkovsky: seus filmes habitam esta mesma efera, das torções, limites, beiras, ultrapassando o momento em que ainda temos consciência de algo, jogando-nos ao corpo, puro corpo, arremessado, rasgado. Curto-circuito. Então, a melhor pergunta a se fazer não é “o que esse filme quer dizer?”, mas “o que está acontecendo?”. E a resposta não será palavras, mas vibrações que beiram a vertigem ou a loucura. Corpo-aberto.

A fotografia é belíssima e a atmosfer criada com a câmera é de tirar o fôlego. Todo o trabalho estético é sensacional e o som, friamente sentido para levar ao limite. As cenas são violentíssimas, fazendo com que nos contorçamos na existência. Com sucesso, somos levados para dentro da película e sentimos seu poder: somos meros grãos, impotentes perante o desfecho. Atmosfera criada para falar diretamente com e pelo corpo. O filme quase não possui falas. Quando vêm, são secas e dão um tom de sentido àquilo que é plasmático e bruto.

Anticristo. Quando poderíamos esperar os movimentos de massa frente ao fim dos tempos, temos algo que não compreendemos. Natureza e Homens, da maneira mais condensada possível: um homem, uma mulher e um filho morto. O cenário principal, uma floresta. Obscura. Veio-me de imediato a primeira pintura sem homens da história ocidental, Albrecht Dürer, final do século XV.

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Não são símbolos, mas metáforas. Homem, sua razão, sua frieza, ainda que seja perturbado pelo desconhecido. Mulher e a antiga alusão às forças da terra, perdição, loucura, sensibilidade. Corpo, sendo destruído por ambos. Sexo, finalmente reduzindo o humano à animalidade, bestial, porém, não suficientemente à espreita – animalidade imanente, inescapável, inextinguível. Natureza, traduzida pelo ambiente, mas nitidamente mais do que isso: forças imanentes de transvaginação – o obscuro, a sombra profunda do abismo de onde brota uma energia que não pode ser lida nem conhecida. Anticristo, quando as forças se voltam contra a criação e tudo devém nati-morto. Quando o sol encontra seu oposto e por ele é devorado. O anticristo não é a violência, mas a força que inibe a criação, que promove a esterilidade. Desligamento da vida, natureza abandonada. Ainda assim, pura pulsão, corroe-se e destrói-se em busca dos escapes, fazendo brotar as mulheres em liberdade, anônimas, vivas, que retornam à floresta para desejá-la sem medo.

Apesar de brutalizado, bendigo a experiência. Ainda existem aqueles que tentam expandir os limites, não se satisfazendo com um jogo banal em que brinca-se com os sentimentos numa onda de puro entretenimento que esconde as profundas contradições da vida real, concreta. Como disse, uma vivência bastante forte – mas enfim, as portas do cinema estão sempre abertas (se quiser sair, é claro).

31 31UTC Julho 31UTC 2009

Quem sabe um retorno

Escrever, linguagem, tempo. Sempre que abro este Blog, voltam os mesmo temas, questões e receios. Talvez por medo ou (com certeza muito mais) preguiça eu tenha passado por aqui raramente. Cada vez menos. Talvez ninguém mais nem visite isso aqui… enfim. Lembro que quando estive imerso no meu Trabalho de Conclusão durante o ano passado, parei de escrever no meu outro Blog, os Dez Mil Platôs. Pois bem, escrever requer energia e mais ainda: disposição. De espaço e de tempo… e ultimamente esses todos me faltaram, pelo menos em relação à escrita. Tentei manter um diário na Índia que, no entanto, resumiu-se a poucas páginas. A pintura quase sumiu (e eu achei que a aquarela fosse um bom negócio, mas é cose pra yogue! Horas e horas pra fazes um papelzinho… ainda tem que secar, muito trabalho, relamente a arte das misturas. Admiro a minha avó). Por outro lado, consegui ler. Impressionante! Viagens dentro das viagens… às vezes até mais longínquas. Estou agora lendo um livro fantástico de Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault. Linguagem, mistérios, templários, cabala, história, surgimento dos neo-hippies (e digo até da redescoberta Índia!). As coisas por tras das coisas. Faz tentar descobrir os segredos e me remete aos meses que passava em frente ao computador decifrando os enigmas com Gabriel Knight, Phantasmagoria, The Dig, The Pandora Directive, entre outros mil jogos interativos que fazem a realidade mais interessante ou, pelo menos, mais intrigante. A questão é que é difícil falar enquanto se come e eu estou mergulhado num banquete. Não é mais o turbilhão dos 4 últimos anos… um pouco mais sóbreo agora. Mas ainda assim, é muito informação, muita dança e pouco tempo. Já se fazem avançados 2 meses de férias e durante esses mais de 60 dias, posso dizer que nem um deles foi normal. Todo dia alguma coisa acontecendo, seja o indiano que enfia um espeto de metal no meu ouvido dizendo que eu estou muito doente e que ele pode limpar em dez minutos (em Hindi!); as falésias de quartzo de 200 metros de altura que enviam ao submundo da vertigem enquanto as ondas mutiazuis se acidentam nos paredões; a boiada de garotas de borracha, com bronze artificial, cabelos de boneca que descem as escadarias do hostel com suas feruduras pós-modernas, gralhando como se fosse o carnaval em Altamira; o muro da paz aqui em Belfast, bandeiras Inglesas por toda parte, velhos irlandeses com barbas brancas amareladas pelo inato tabagismo que cantam “Irish Rebel Songs” e aplaudem o “trem das onze” timidamente cantado no pub. Contrastes, contrastes, ressonâncias, desgostos, gostos(os os os) como os urubus de Guimarães. A escrita estoura ou fica ali, toda comprimida na ponta da caneta. Tentarei fazê-lo neste ábaco desenvolvido, I Ching cibernauta, Rummikub virtual.

Depois do calor fatídico indiano, das incontáveis horas de transporte, dos milhões de templos coloridos e detalhados, mesquitas, Ashrams, Gângeses, Himalayas invisíveis, temperos, jejuns, Gandhis, Stalins, Namastês e Namaskars, 7 vidas disperdiçadas no trânsito frenético indiano ( e a 1 cm da batida fatal, a frase pintada nos taxis e caminhões “Good Luck”), Máfias, golpes, tecidos coloridos, águas podres que levam seguramente ao hospital, fedores, lixos, olhares apaixonates com seus véus, festa das moções (saímos no Himalayan Times! foto de uma página, cobertos de lama e um sorrisão depois do futebol no campo de arroz inundado)… cheguei em Lyon, para ficar 4 dias. Mudança de apartamento, mas também um tempo que antecipadamente julguei necessário para repor as forças e partir pra a Grã-Bretanha. Foi um tapa. Silêncios, vazios, monotonia, homogeneidade. Não como os indianos-formiga, mas como periquitos disfarçados de araras-azuis. Suspiramente arrumado. Welcome back in Europe (Bienvenue… la la la baguette). Aí vem a Inglaterra, nada mais do que a penúria na fronteira. Limite do surrealismo, dadaísmo político. Ouvi dizer que está em fase de teste um máquina que faz raio-x da sua alma e se ela contiver algum pecado, insinuações amorais ou pensamentos sórdidos acima de 150 kJ, você pode se dar mal. De tanto medo, ninguém abre a boca e todos tiram os sapatos. Pior, começam a achar normal e ainda pior, a defender a invasão. Diria meu amigo Pedro: síndrome de Estocolmo.

País de Gales, barco, Irlanda. À la americana. Falidos e atolados em dívidas, país vapor onde tudo é crédito. Pode-se até ver a linha pontilhada das casas transparentes, dos carros, das roupas… Porém, fundados numa ilha mística. Paraíso geológico. Praias, mares, Oceano, Lagostas, Carangueijos, arcos-íris por toda parte. Muito pouca gente, muitas poucas cidades: casas espalhadas, estradas pequenas e muita carona (para os estrangeiros – Couch Surfing e Carona! Futuro de toda e qualquer viagem). Grande interior: pessoas simpáricas e descontraídas. Porém, afetadas tremendamente pelo sonho da modernização com seus carros de luxo, enormes casas, cosméticos como nunca havia antes visto – que desfalecem pouco a pouco diante de todos. A não ser daqueles muitos (quase que somente homens) que podem contar sobre as fábricas que desaparecem e a taxa de desemprego que aumenta exponencialmente. Não é à toa que praticamente todos já viveram ou vivem em algum país estrangeiro (E.U.A., Australia, Inglaterra).

No meu caminho, cruzei alguns viajantes, quase todos europeus. Muitos franceses. Então comecei a ver os franceses sob outra ótica, sua moda, sua finess (como diria Nietzsche, canaille) e sua mente obtusa. Lógicos e civilizados. Arrogantes, por mais que abertos. Chatos, porém, interessantes. Diria ícone da perversidade. Dissimulados. Sabem jogar muito bem, mas não conseguem ou não querem jogar outro jogo, por mais que reclamem deste o tempo todo. Diria ingênuos por um lado. Mas muito inteligentes. Não que eu deteste os franceses (além disso, ave generalizações!), pois aprendi muito com eles: mundo concreto, material, “quais são suas fontes?”. Isso no Brasil nos falta. Franceses falam, falam, falam sobre o que lêem, dados, números, gráficos, capitais. Nós falamos, falamos, falamos sobre qualquer coisa. Convenceu, tá valendo. Como disse um dia um professor, quando o assunto é pesquisa, “português só serve para fazer fofoca”. Enfim. Aí você cruza o canal da Mancha, chega numa ilhota com um monte de bárbaros que se chamam de Sirs, comem batata o dia todo (principalmente frita), tomam cerveja e arrotam. Pomposos, mas bárbaros, assassinos e criminosos. Comecei a ligar os pontos: Destruiram a Irlanda, acabaram com a Índia. A política dos ingleses é meter bala e fazer dinheiro. A dos franceses, penetrar nas mentes e fazer dinheiro (dizendo que promovem o humanismo e a cultura). E os dois que se detestam na história andam de mãos dadas, econômico e político. Talvez não seja por acaso que ambos possuam vermelho, branco e azul em suas bandeiras (a retidão do direito na França, a complexidade do econômico no Reino Unido).

É isso, de repente vem esse medo, a angústia de não conseguir acabar. O fim, La fin, the end. Vamos longe e depois… e depois? Não sei como acabar, concluir isso que comecei a escrever. Mas foi. Talvez seja isso, está sendo. Então por enquanto vai ser assim, sem fim. Por agora, meto um ponto. Ta aí. Ponto.

17 17UTC Junho 17UTC 2009

Conexao Nirvana

Ha semanas estou tentando aqui e nao consigo. Por isso vou ser rapido e curto (de preferencia intenso) e sem assento.

Fiquei de ferias em Lyon e vim pra India, assim, sem saber porque. Com a Bia, carioca parceira que conheci la na Franca. Estamos agora em PushKar, uma das cidades mais sutis do mundo. Pouco barulho, muitos passaros, pessoas muito simpaticas, porque na maioria das outras cidades, os turistas sao tratados como esponjas de grana, igual um picole no deserto. 50 mil te abordando, e insano, um exercicio de silencio interno, respiracao profunda e muita paciencia. Sao mais de 50 templos, um lago sagrado (sem agua agora). Cidade sagrada de Brahma, criador do mundo.

Apos 3 dias o hospital com infeccao intestinal, sendo ultra bem tratado num lugar mais precario que o SUS, mas com muito mais amor e ainda especializado em males intestinais de turistas.

Muita gente, de uma maneira inimaginavel (Delhi e um absurdo) e o transito e uma montanha russa, sem cinto de seguranca e muito mais rapida, onde parar e impossivel – o lema e “buzina e passa”. Muitos cheiros, coisas diferentes para comer, muitos temperos (vide “hospital”, terceiro paragrafo). Muitas diferencas tambem. Cada lugar e completamente diferente do outro: clima, paisagem, linguas, pessoas, tempos. E o mais engracado e que a cada dia que passa, voce vai se acalmando, se acostumando, mas entrando em outro estado de espirito, porque apesar de todas as dificuldades, aqui e o lugar mais leve do planeta, faz transitar por outras esferas.

2 02UTC Maio 02UTC 2009

Uma gota de arte

No começo do ano, em uma festa descompromissada, ao alheio, uma câmera veio parar em minhas mãos e ao meu lado uma garota… as fotos mais expressivas que já vi e só ontem à noite as recebi. Um choque. Uma sutileza que me transportou para outras dimensões, uma fumaça. E o impulso de se apropriar, de fazê-la real, viva… dentro de mim, mas para além de mim, transpondo o corpo numa mistura desconhecida. Frustração de tentar desenhá-la, pintá-la (o que não fazia há muito tempo), até hoje.

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E com meu mini kit de tintinhas para aquarela fui tingindo o papel. Diferente da foto, mas outra coisa. Ao acabá-la estava transbordando vida, energia, sublime. Numa epifania senti a arte.

Uma questão de técnica. Mas muito mais do que isso, de olhar, de percepção, de sensibilidade. Captar, apreender algo além, que ninguém vê, ou ao menos que ninguém percebe ou não se dá conta. Metamorfoses da matéria que doam ao mundo algo de novo, de diferente. Uma visão inédita, uma percepção inaudita. Entendo agora porque acho tão difícil vender uma obra, pois ela em si é um presente para todos aqueles que podem ver ou que são chamados a ver. Gratuitamente, generosamente.

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Entrega de energia concentrada em algo. Produção. Transbordo da alma, do espírito, do corpo. Sua força escapa àquilo em que se concretiza. Artesão que se escorre para dentro daquilo que faz. Nó no estomago que só pode ser desdado ao transvaginar sua inquietude. Extensão da tensão que lhe habita. Assumindo sua voz no mundo para que escutem o que não se falou ou se fale o que não se escuta. Quem sabe.

27 27UTC Abril 27UTC 2009

Falas do Corpo

Fiquei um tempo sem escrever e comecei a me inquietar por deixar defasado este espaço. Nem tanto pelo compromisso de escrever, mas muito mais pelas idéias-experiências que me atravessam com rapidez e que não esperam descansar. Aí o registro, no caminho mesmo.

Fiz uma viagem de bicicleta com dois amigos cariocas. Uma semana, 400 km – de Lyon à Marseille, rumo ao mar, em direção ao Mediterrâneo. Mil estratos. Depois de 20 min de pedalada, você já está numa paisagem rural. Fiquei perplexo em ver como a França é variada e como predomina enormemente o campo. Cidades antiqüísimas, cercadas por plantações, logo ao lado de usinas de energia nuclear. Síntese da França: uma tradição extremamente valorizada, o que leva a um sentimento nacionalista fortíssimo; um desejo de liberdade e de afirmação, que lhe garante o título de produzir com qualidade incomparável; e o investimento em tecnologia absurdo que lhe dá uma estranha fisionomia de ser extremamente desenvolvida em termos de técnicas e produtos, mantendo ainda seu espírito ancião.

Seguindo o rio Rhone, paralelamente víamos cadeias de montanhas estratificadas de calcário, muitas rochas sedimentares, repletas de verde, sejam das florestas ou plantações, sobre as quais passavam Trens de Grande Velocidade ou mesmo o vermelho, azul e branco desenhados no céu pela esquadrilha da fumaça. Tudo isso devagar e com muito esforço dessas pernas – para que vos quero! Definitivamente a melhor maneira de viajar. Ter tempo de perceber, pensar em movimento, mover o pensamento. Corpo-motor, corpo-bomba, corpo-pistão e tração. A respiração, a força, as engrenagens. Tornamo-nos força e movimento, imersos e expandidos no ambiente. Interação, mesmo que à distância. E foi terrível voltar de trem, pois de imediato nos colocamos em outro espaço, parado em movimento. Corte. Lê-se, se dorme, se passa o tempo. Lembra-se do que acabou de ser: cada casa (usem o Couchsurfing!!! Um interessantíssimo uso da internet.), as pessoas do caminho que iam dando informações, ou nem sequer olhavam, as cidades, as subidas, as pérolas. Lembra-se do que será, que reganha uma dimensão concreta, a dos próximos dias.

Depois do corpo-vigor, o corpo-móbile, corpo-articulação e tensão. Posei para escultores e desenhistas. 3 horas na mesma posição, contrário absoluto do que fiz ao longo da semana anterior. Então veio a sutileza do corpo, seu movimento incessante: respiração, circulação, equilíbrio e, portanto, ligamentos. Pensamento. E como na bicicleta, mas de maneira totalmente diferente, a mente não pára; pululam idéias e percepções, partindo do corpo, como se o estivesse abandonado. Para logo experiênciar a “Duração e a Simultaneidade” e a realidade fundamental que é o corpo, mesmo dobrado em incontáveis platôs que abrem as portas para esses mundos fantásticos das imagens. Transponíveis pela linguagem, partilha do invisível.

É assim que as coisas estão se passando. Enquanto batalho para expressar-me em francês, percebo. Por exemplo, que o moderno ou a modernidade é uma multiplicidade. Línguas mais diversas com os mesmos fundamentos, reformados. Sujeito, verbo, objeto – o indivíduo é o centro. E quando se é o centro, é difícil não se impor e dar o exemplo, o que leva à sacralização das instituições. Consciências que são impulsionadas a agir segundo uma tendência que nivela tudo pelo teor econômico (não por acaso diz-se que a solução para o desmatamento é dar  um valor monetário floresta e por fim, a tudo que se tem interesse) e que resulta na regulagem mercadológica e capitalista da produção, do inestimento, do consumo e do crédito. Não é ganância; são as necessidades de um movimento que constitui um mundo para além, muito além de cada indivíduo.

6 06UTC Abril 06UTC 2009

Arrete de Betise!

É engraçado como as coisas funcionam. Diria que os sonhos são caretas quando as coisas se encadeiam. Você cria um problema e o mundo lhe lança presentes para levá-lo adiante. Livros que aparecem, citações, filmes, conversas – e talvez, por fim, pessoas. “Il ne faut pas prevoir l’avenir, mais le permettre” St. Exupéry (Não precisamos prever o futuro, mas permití-lo). O problema fica, não como uma fixação, mas como um retorno insistente (Bolero de Ravel).

Depois da greve, que agora se restringe a uma manifestação semanal e que, pelo visto, não terá sucesso algum, comecei a ter aula. E antes tivesse ficado com a greve. A faculdade cheia, pessoas indo e vindo (e literalmente apenas indo e vindo), computadores a postos, já que 90% da sala não tem cadernos, mas laptops, me fizeram sentir algo que demorei um pouco para entender. Aula estilo rádio AM. Pura informação, especialização máxima do conhecimento. Números, gráficos, datas, nomes… lembravam-me das aulas de cursinho. E dizia que tudo aquilo era estranho demais. Mas não conseguia fazer-me entender. Mesmo assim, quando perguntam-me o que faço aqui e respondo que estudo sciences politiques no IEP (Institut d’études politiques), exclamam “nossa! você vai se dar bem, já sai de lá empregado”. E o espírito da maioria dos estudantes do IEP é esse mesmo: bonachões superiores, apesar de muito simpáticos (qualidades que estão estreitamente ligadas) - porém, sem tesão. Não há frio na barriga; apenas uma árdua batalha contra o sono.

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Final do ano passado apresentei meu trabalho de conclusão de curso em Geografia: Natureza, Cultura e Capitalismo. E na frente de 3 professores fortes, sabia que, apesar de ter mergulhado fundo no tema, era apenas o início de uma viagem que talvez dure toda a minha vida. De onde menos esperava ficou a questão mais latente: “A contradição não é ideal, mas concreta”. A crítica que elaborei à dialética é muito eficiente, quando se trata de lógica ou de uma mecânica do pensamento que tenta se sobrepor ao real. Entretanto, com a experiência do vampirismo exploratório do meu trabalho de garçom, comecei a entender melhor o que quer dizer “a contradição é concreta”. E assistindo a um filme que surgiu do acaso ontem (Zeitgeist addendum - Assistam!!!), na madrugada, senti um baque e muita coisa fez sentido.

A terceira parte do meu trabalho, Capitalismo, é a menos desenvolvida, apesar de ser a mais importante. A economia é a efetuação real que liga o imaginário ao concreto. É preciso compreendê-la! A pós-modernidade esconde e ao mesmo tempo leva ao extremo os resultados da Guerra Fria que se configuravam já bastante tempo antes. O sistema de produção, circulação e abstração capitalista é sinistro. Um mecanismo fraudulento de perpetuação do status-quo, nunca antes imaginado. É a táboa rasa da realidade, que apesar de tudo nos confina e nos remete à mesma realidade, ao mesmo mundo e à mesma liberdade. “Ninguém é tão escravizado quanto aqueles que falsamente crêem que são livres.” Goethe.

Uma sociedade baseada no dinheiro – fetiche máximo, ou seja, algo que é para nós completamente natural. Mas dinheiro que permite o funcionamento de um sistema surreal, abstrato que se destaca do real, literalmente. Fraude, fraude, fraude. Dinheiro que não existe, criado a partir de dívida, sem fundamento. Sociedade baseada no trabalho, que dá a ilusão de poder libertar do sistema da dívida infinita concreta. Trabalho que anula qualquer perspectiva de subjetividade e psicologismo barato, que faz com que qualquer ser humano nada mais seja do que uma máquina a serviço de outras máquinas e que, a bem da verdade, dão vida a um sistema que lhes é muito maior e do qual não têm consiência. Escravidão irrefutável.

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Apesar do esforço de escapar, de escorregar, a realidade é dura. Então entendi meu mal-estar junto ao ensino francês: especialização e qualificação sem perspectiva, desiludida, que finge não saber e que segue podre, buscando apoios desesperados para legitimá-lo, por exemplo, as reformas universitárias: greve. Entendi também minha revolta com o trabalho, que me reduz a um autômato. Não podemos deixar de construir a crítica e então farejar os meios de desarticular essa máquina cósmica onírica capitalista.

22 22UTC Março 22UTC 2009

A destruição do trabalho

Acabei de chegar em casa, acabado, depois de uma longa noite de trabalho num restaurante brasileiro. Estou em estado meditativo e a única coisa que consigo pensar é em como o trabalho é a destruição em si mesma. Muitos dirão que é fácil, quando se está viajando pra gringa, tudo tranqüilo, playboy forgado. Mas isso não é relevante. Senti minha energia sendo subtraída e transformada em mais-valia, sob o domínio de uma mulher bem sucedida que batalhou para construir o seu castelo. Gentil, simpática, olhos claros que iludem os corações macios. Minhas pernas formigam, exploradas, abusadas, por um salário medíocre. Penso então que se o salário fosse melhor, a sina valeria a pena.

Sou assim invadido por um turbilhão de pensamentos, que riem da minha ingenuidade e do ressentimento popular, que crê, assim como eu agora, que o azar é grande e que nada resta além de ser explorado – ou no máximo se revoltar contra seu patrão (contra burguês vote 16). Pois bem. A coisa é bastante simples. Você rala, se estrupia, ganha um troco. Aí pode girar a roleta e comprar algumas coisas (momentos em que brota uma satisfação bisonha); pode viajar (momento em que o bem estar é geral, bizarramente) ou pode ainda gastar tipo potlatch (em que sentimos um enorme peso na consciência, sendo paradoxalmente o momento mais agradável do dia – ao invés de queimar dinheiro, o torramos). Satisfação quase grantida (qualquer problema ligue para o SAC). Mas além disso, o revés da moeda, um pouco menos perceptível, é que sendo esse Jacques X, principalmente o mais explorado, damos corda no peão, fazendo com que a lógica da exploração se perpetue, avance e se fortaleça.

E mais além do além disso, a recompensa (um salário suficiente – sabe-se lá para que) amortece os sentidos e cala a indignação. O trabalho, que sabemos ser um vampiro que compra nossa alma, de fato a suga todos os dias depois do expediente, quando não conseguimos nos livrar da obsessão de aliviar a tensão de um dia estafante.

De fato, a contradição realíssima vem do cotidiano que não nos apresenta outra possibilidade que não seja trabalhar para sobreviver. Porém, conheço pouquíssimos que, por mais que digam, trabalham para continuar vivos enquanto ameba composta por 70% de água salgada. E tchã-nã-nã… eis a questão. Não a verdadeira, mas o pulo do gato. Você trabalha para que?! Nossos filhos não vão mais para o Vietnam, mas constituem o maior exército de todos: os trabalhadores. Colonização virtual financeira, que muda rapidamente seus investimentos, buscando novas fronteiras do lucro onde o capital é mais rentável.

No fundo, ou na superfície, é uma economia de energia, economia do desejo. Como investimos nossa energia. O dinheiro tem sua função social, que inclui a possibilidade de expansão do corpo e da vida. Mas não por isso, deve ser parâmetro. Facilitador de desbunde, arma quantitativa de medir qualquer coisa. Antes da prata, vem a sua produção. Grande merda a sua grana! Seu explorado ao contrário. A miséria da vida lhe come pelas beiradas. Até que, quando vemos, só resta o caroço da azeitona. A anestesia torna-se generalizada. Miserável de você, seu reclamão sonhador, que crê fazer algo pelos outros, enquanto abre as portas de mais um mercado consumidor/trabalhador.

Acima de tudo, não é o caso de apontar culpados. A corrosão vem de dentro, difícil de escapar. A teia é pegajosa, boa para relaxar. Sociopsicopatia. A flor mais rara é a coragem.