Escrever, linguagem, tempo. Sempre que abro este Blog, voltam os mesmo temas, questões e receios. Talvez por medo ou (com certeza muito mais) preguiça eu tenha passado por aqui raramente. Cada vez menos. Talvez ninguém mais nem visite isso aqui… enfim. Lembro que quando estive imerso no meu Trabalho de Conclusão durante o ano passado, parei de escrever no meu outro Blog, os Dez Mil Platôs. Pois bem, escrever requer energia e mais ainda: disposição. De espaço e de tempo… e ultimamente esses todos me faltaram, pelo menos em relação à escrita. Tentei manter um diário na Índia que, no entanto, resumiu-se a poucas páginas. A pintura quase sumiu (e eu achei que a aquarela fosse um bom negócio, mas é cose pra yogue! Horas e horas pra fazes um papelzinho… ainda tem que secar, muito trabalho, relamente a arte das misturas. Admiro a minha avó). Por outro lado, consegui ler. Impressionante! Viagens dentro das viagens… às vezes até mais longínquas. Estou agora lendo um livro fantástico de Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault. Linguagem, mistérios, templários, cabala, história, surgimento dos neo-hippies (e digo até da redescoberta Índia!). As coisas por tras das coisas. Faz tentar descobrir os segredos e me remete aos meses que passava em frente ao computador decifrando os enigmas com Gabriel Knight, Phantasmagoria, The Dig, The Pandora Directive, entre outros mil jogos interativos que fazem a realidade mais interessante ou, pelo menos, mais intrigante. A questão é que é difícil falar enquanto se come e eu estou mergulhado num banquete. Não é mais o turbilhão dos 4 últimos anos… um pouco mais sóbreo agora. Mas ainda assim, é muito informação, muita dança e pouco tempo. Já se fazem avançados 2 meses de férias e durante esses mais de 60 dias, posso dizer que nem um deles foi normal. Todo dia alguma coisa acontecendo, seja o indiano que enfia um espeto de metal no meu ouvido dizendo que eu estou muito doente e que ele pode limpar em dez minutos (em Hindi!); as falésias de quartzo de 200 metros de altura que enviam ao submundo da vertigem enquanto as ondas mutiazuis se acidentam nos paredões; a boiada de garotas de borracha, com bronze artificial, cabelos de boneca que descem as escadarias do hostel com suas feruduras pós-modernas, gralhando como se fosse o carnaval em Altamira; o muro da paz aqui em Belfast, bandeiras Inglesas por toda parte, velhos irlandeses com barbas brancas amareladas pelo inato tabagismo que cantam “Irish Rebel Songs” e aplaudem o “trem das onze” timidamente cantado no pub. Contrastes, contrastes, ressonâncias, desgostos, gostos(os os os) como os urubus de Guimarães. A escrita estoura ou fica ali, toda comprimida na ponta da caneta. Tentarei fazê-lo neste ábaco desenvolvido, I Ching cibernauta, Rummikub virtual.
Depois do calor fatídico indiano, das incontáveis horas de transporte, dos milhões de templos coloridos e detalhados, mesquitas, Ashrams, Gângeses, Himalayas invisíveis, temperos, jejuns, Gandhis, Stalins, Namastês e Namaskars, 7 vidas disperdiçadas no trânsito frenético indiano ( e a 1 cm da batida fatal, a frase pintada nos taxis e caminhões “Good Luck”), Máfias, golpes, tecidos coloridos, águas podres que levam seguramente ao hospital, fedores, lixos, olhares apaixonates com seus véus, festa das moções (saímos no Himalayan Times! foto de uma página, cobertos de lama e um sorrisão depois do futebol no campo de arroz inundado)… cheguei em Lyon, para ficar 4 dias. Mudança de apartamento, mas também um tempo que antecipadamente julguei necessário para repor as forças e partir pra a Grã-Bretanha. Foi um tapa. Silêncios, vazios, monotonia, homogeneidade. Não como os indianos-formiga, mas como periquitos disfarçados de araras-azuis. Suspiramente arrumado. Welcome back in Europe (Bienvenue… la la la baguette). Aí vem a Inglaterra, nada mais do que a penúria na fronteira. Limite do surrealismo, dadaísmo político. Ouvi dizer que está em fase de teste um máquina que faz raio-x da sua alma e se ela contiver algum pecado, insinuações amorais ou pensamentos sórdidos acima de 150 kJ, você pode se dar mal. De tanto medo, ninguém abre a boca e todos tiram os sapatos. Pior, começam a achar normal e ainda pior, a defender a invasão. Diria meu amigo Pedro: síndrome de Estocolmo.
País de Gales, barco, Irlanda. À la americana. Falidos e atolados em dívidas, país vapor onde tudo é crédito. Pode-se até ver a linha pontilhada das casas transparentes, dos carros, das roupas… Porém, fundados numa ilha mística. Paraíso geológico. Praias, mares, Oceano, Lagostas, Carangueijos, arcos-íris por toda parte. Muito pouca gente, muitas poucas cidades: casas espalhadas, estradas pequenas e muita carona (para os estrangeiros – Couch Surfing e Carona! Futuro de toda e qualquer viagem). Grande interior: pessoas simpáricas e descontraídas. Porém, afetadas tremendamente pelo sonho da modernização com seus carros de luxo, enormes casas, cosméticos como nunca havia antes visto – que desfalecem pouco a pouco diante de todos. A não ser daqueles muitos (quase que somente homens) que podem contar sobre as fábricas que desaparecem e a taxa de desemprego que aumenta exponencialmente. Não é à toa que praticamente todos já viveram ou vivem em algum país estrangeiro (E.U.A., Australia, Inglaterra).
No meu caminho, cruzei alguns viajantes, quase todos europeus. Muitos franceses. Então comecei a ver os franceses sob outra ótica, sua moda, sua finess (como diria Nietzsche, canaille) e sua mente obtusa. Lógicos e civilizados. Arrogantes, por mais que abertos. Chatos, porém, interessantes. Diria ícone da perversidade. Dissimulados. Sabem jogar muito bem, mas não conseguem ou não querem jogar outro jogo, por mais que reclamem deste o tempo todo. Diria ingênuos por um lado. Mas muito inteligentes. Não que eu deteste os franceses (além disso, ave generalizações!), pois aprendi muito com eles: mundo concreto, material, “quais são suas fontes?”. Isso no Brasil nos falta. Franceses falam, falam, falam sobre o que lêem, dados, números, gráficos, capitais. Nós falamos, falamos, falamos sobre qualquer coisa. Convenceu, tá valendo. Como disse um dia um professor, quando o assunto é pesquisa, “português só serve para fazer fofoca”. Enfim. Aí você cruza o canal da Mancha, chega numa ilhota com um monte de bárbaros que se chamam de Sirs, comem batata o dia todo (principalmente frita), tomam cerveja e arrotam. Pomposos, mas bárbaros, assassinos e criminosos. Comecei a ligar os pontos: Destruiram a Irlanda, acabaram com a Índia. A política dos ingleses é meter bala e fazer dinheiro. A dos franceses, penetrar nas mentes e fazer dinheiro (dizendo que promovem o humanismo e a cultura). E os dois que se detestam na história andam de mãos dadas, econômico e político. Talvez não seja por acaso que ambos possuam vermelho, branco e azul em suas bandeiras (a retidão do direito na França, a complexidade do econômico no Reino Unido).
É isso, de repente vem esse medo, a angústia de não conseguir acabar. O fim, La fin, the end. Vamos longe e depois… e depois? Não sei como acabar, concluir isso que comecei a escrever. Mas foi. Talvez seja isso, está sendo. Então por enquanto vai ser assim, sem fim. Por agora, meto um ponto. Ta aí. Ponto.










Arthur,
como é bom ver que voce está aí, onde quer que seja; como é bom que ver que voce ainda escreve, mesmo que menos frequente, mas cada vez mais profundamente, cada vez com mais maestria – e emociona. Lembra-se que “O pêndulo de Foucault”, este livro estava na biblioteca de, senão me engano, de Piranhas, à beira do Rio São Francisco???
Gosto muito de saber que você está vivo, está vivendo, experimentando, sempre com sua intensidade, se metendo pelos cantos e situações mais longinquos e impensados, chegando realmente na beira – eu, que já tive o prazer de viajar com você, sei como é. Sinto sua falta.
Um abração, do tamanho do planeta Terra.
Escreva como se fosse acabar na próxima linha, aí não tem erro. Esse negócio de citar fontes nem existe, os caras nunca ouviram falar de referência oculta? Será que eles jogam esse jogo? Gostei muito da descrição da francesada, vai para a galeria de crítica aos franceses. Bravo!
Me faz falta esse papos com referências mesmo, nessas terras, pessoas são meio mal vistas fazendo isso. Parece que estão falando algo meio pornô, sei lá. Art, valeu por essas imagens postadas. O Dezmilplatos tem que voltar, mas é meio difícil para mim escrever também. Estou preferindo o comentário.